13 de julho de 2011

E agora, Josué? Nas terras do Bem-virá!






Indicado por Mestre Reginaldo Véio

Porto Alegre, 12 de julho de 2011

"Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita. Mas como agora apareceu portador, mando notícias nessa escrita." 


Josué, me chamaram esses dias pra assistir ao filme “Nas Terras do Bem-Virá” num ciclo de debates sobre conflitos agrários. Resolvi assuntar e descobri que se tratava de um dos documentários mais completos para se entender a questão dos conflitos agrários no Brasil.

Oxe, mas só valeu à pena sair de casa a 5°C pelo filme e Lua sorrindo no fim, porque a noite terminou com uma tentativa frustrada de debate, por falta de tempo, depois de um resgate histórico do tema por um professor e o relato da experiência de uma procuradora federal. Não me culpe, compadre, por começar a te escrever me queixando, mas aquela noite foi danada e eu ando aperreada pra te contar.  Longe de botar defeito na atuação da exma. procuradora nos dois anos em que combateu voluntariamente o trabalho escravo nas grandes fazendas da região sul do Pará, minha arenga é pela fala dela quando a telinha se apagou.

Sabe... eu esperava uma análise mais complexa e uma visão menos preconceituosa de uma representante do poder público federal, por sua experiência nos conflitos socioambientais daquela região amazônica por mais de 530 dias, mesmo que fosse uma gaúcha “criada no asfalto e shoppings de Porto Alegre”, como ela se declarou. Mas tem cabimento, ô Josué, uma autoridade pública, que deveria discutir os mecanismos de empoderamento e instrumentalização da população sem terra pela exigibilidade do direito a posse da mesma, se considerar “a voz desse povo imigrante nordestino, tão puro e aculturado”, embora “esteja apenas enxugando gelo”. Que voz é essa, ô Josué, se todo homem já nasce gritando? E que gelo é esse que joga pelo ralo tão grande riqueza quanto a cultura nordestina?

Confesso, visse, que fiquei arretada quando ouvi o depoimento de um fazendeiro latifundiário no vídeo que considerava um favor submeter àquelas condições subumanas os agricultores nordestinos que migraram para a Amazônia para virarem peões de trecho, diante das propagandas no Regime Militar de uma “terra que mana leite e mel” para "homens sem terras do nordeste em terras sem homens na Amazônia". 

Mas fiquei besta quando a procuradora defendeu que essa situação acontece pela “submissão do povo nordestino a um prato de comida, por sua crendice e conformismo religiosos”, lamentando que não tenham “o mesmo sangue lutador do povo gaúcho tampouco sua estrutura cultural”.Crendice? Conformismo? Parei pra pensar que a religiosidade desse povo foi fundamental para resistirem às penúrias da longa e sofrida viagem, antes das condições insalubres de trabalho e vida nas grandes fazendas. E foi essa religiosidade e sabedoria popular que fizeram esses imigrantes, assim como a população local amazônica, respeitarem e reconhecerem na figura emblemática da Irmã Dorothy, uma força divina no enfrentamento do poder dos fazendeiros, políticos corruptos, assassinos e da mídia tradicional.

Como alguém pode criticar a “pureza e inocência” dos nordestinos que não só acreditaram nas profecias de Padre Cícero, mas também nas propagandas massivas da “terra que mana leite e mel” (Exodo 3:8) feitas pelo Governo Médici e desconsiderar a iniciativa de um pastor luterano no convencimento da partida dos primeiros gaúchos à região amazônica? E que submissão tão extrema é essa que foi e ainda é capaz de gerar tantos conflitos socioambientais na região? Josué, reduzir as questões religiosas à mera crendice é não levar em conta a influência que a Amazônia teve na própria mudança da orientação católica no Brasil, com o surgimento da Pastoral da Terra (Martins, 1994).

Ah, e por falar em influência, andam dizendo por aí que foi tu quem incentivou o desmatamento na Amazônia, para acabar com a fome e a pobreza da região. Como eu sou igual a São Tomé e só acredito vendo, fui dar uma lida nos teus escritos pra não chamar nenhum cabra de mentiroso sem ser. E acertei na veia! “Para melhorar as condições alimentares da área amazônica faz-se necessário todo um programa de transformações econômico-sociais na região. As soluções dos aspectos parciais do problema estão todas ligadas â solução geral de um método de COLONIZAÇÃO ADEQUADA à região.” (Castro, 1946, pg 102).

E esse tal de “gauchismo” repetido tantas vezes pela procuradora, que mais me parece uma reza?!   Veio acompanhado de mais preconceito contra o povo nordestino, citado por ela como imigrantes no Pará que, entre outras dívidas absurdas que os faziam ficar presos naquelas terras até uma ilusória quitação, precisavam manter seu “gosto pela bebida”. E como se não bastasse a discriminação feita, indistinguiu aquela gente ao exemplificar sua descoberta de trabalho escravo na construção de um shopping em Porto Alegre, através da identificação de trabalhadores de “caras todas iguais, de rosto achatado e grandes orelhas, fotocópias de Sarney!” Pena que ela não vai encontrar num shopping perto de casa caras iguais a de Paulo Freire, Nisia Floresta, Francisco Julião ou a tua...

E por falar em Francisco Julião, hoje faz 12 anos da morte desse companheiro, líder das ligas camponesas em Pernambuco, militante da reforma agrária no Brasil (Martins, 1994). Tu não se lembrou da data? Aí não carece de calendários, eu sei. Por aqui as pessoas estão mais preocupadas com o aniversário de uma companhia aérea e suas passagens mais baratas.

É... parece que os fluxos migratórios mudaram, mas as promessas de ir a terra prometida continuam. Quem sabe, Josué, isso não resolva os problemas dos maranhenses? Segundo a procuradora, o problema desses trabalhadores, quando chegam à Amazônia e se deparam com a situação de trabalho escravo, é “falta de dinheiro para a passagem de volta ao Maranhão”. Estaria aí a solução? Reforma Aérea para todos então! Olha, me lembrei de tu de novo.

Açailândia, Amarante, Imperatriz foram cidades citadas no documentário nesse fluxo de homens e famílias para o sul do Pará. As mesmas cidades, na época de gravação do tal filme (entre 2006-2007), que no Maranhão sofreram, junto com Tocantins e Roraima, um surto de beribéri (carência nutricional de vitamina B1 causada, entre outros fatores, por dieta extremamente monótona). Na época, foram registrados 1207 casos e 40 óbitos na região, em sua maioria, de homens jovens, dessa doença tão absurda, antes só registrada por tu durante o ciclo da borracha na Região Amazônica (1870 e 1910).“Não posso, não posso” (=beribéri) era assim que os índios chamavam essa doença que lhe tirava até as forças vitais? Hoje, não sei se você tem acompanhado daí...

É, os jornais continuam não noticiando muita coisa... Mas nas últimas décadas, o desenvolvimento nessa região do Maranhão tem priorizado o desmatamento extenso com intensificação da plantação de eucalipto para atender mineradoras e madeireiras instaladas na área, além da agropecuária extensiva, em detrimento da produção de alimentos básicos, principalmente arroz, feijão, milho, mandioca e de frutos nativos como castanhas, babaçu e buriti (Lira; Andrade, 2008). As conseqüências são a desestruturação da economia local, ampliando a desigualdade social, comprometendo o meio ambiente e o acesso aos alimentos, além da qualidade de vida da população. Prato cheio pra uma nova Geografia da Fome, hein, Josué? Foi mal. Não vou te aperrear pra atualizar teus livros, até porque hoje o agronegócio tem feito o que quer em nossas fronteiras. Tu já teria dificuldade em desenhar um novo mapa.

Vixe Maria! Só falo de morte ou doença, Josué? Comemoremos então! Hoje é aniversário de Pablo Neruda. Vamos brindar! Com álcool não, por favor, pra não comentarem o “gosto de beber” nordestino, aqui produto social fermentado nas desigualdades e destilado a base da violência cometida àqueles peões de trecho no Pará e aos jovens desempregados do Maranhão. Tá certo, desisto. "Pai, afasta de mim este cálice!"

Me lembrei que no dia em que tu morreu no exílio, Neruda também batia as botas, de igual doença – tristeza – duas semanas depois do golpe militar no seu lar, o Chile. E por falar em lar, vou logo te dizendo que, se quiser responder essa carta, escreva meu endereço direitinho senão pode parar em alguma cidade brasileira colonizada nas fronteiras agrícolas como Porto Alegre do Norte e Porto dos Gaúchos (MT), Porto Alegre do Piauí, Rio Grande do Piauí (PI) ou Porto Alegre do Tocantins (TO). Um dia eu hei de entender um pouco mais da migração nessa região sem o tradicionalismo mítico da superioridade e bravura do sangue gaúcho, pioneiro e desbravador, que se reforça ainda mais frente aos estigmas negativos imputados a identidade nordestina (Haesbaert, 1998). Quando alguém me contar toda a resenha, eu te explico nos detalhes.

Como escreveu Frei Betto por esses dias (peço perdão pela minha crendice num frei): “Pena que o mundo acabou, a história findou e toda essa gente virou pó. Como teria sido importante o povo brasileiro ter direito à transparência histórica! Com certeza teria evitado que a nação repetisse tantos erros e reelegesse aqueles que distorceram os fatos e os encobriram para perpetuarem uma boa imagem que jamais mereceram.” Parece que os homens que escreveram e continuam escrevendo “nossa história”, a exemplo do Massacre dos Carajás, Corumbiara ou dos Porongos, têm sido meros lambe-botas de estancieiros e generais (Paulo Monteiro, 2010).

No mais, Josué, encurtando a prosa que eu sei que tu tá avexado, queria te avisar que já perdi a conta de quantos agricultores foram mortos nas últimas semanas na luta pela terra. E a lista de gente ameaçada é maior que a de animais em extinção na Amazônia. Espécimes raras! O último foi assassinado em nossas terras, Pernambuco.

"E agora, Josué? O filme acabou, a luz apagou, o povo sumiu e o debate esfriou? E agora, Josué?" Estarei presente na próxima sessão do ciclo de debates sobre conflitos agrários, pela promessa de uma discussão de qualidade sobre o tema para enfrentamento do problema. Espero também contar com a participação de mais colegas de pós-graduação e movimentos sociais para legitimação desse campo e ocupação do espaço no cinema que também nos é de direito.

P.S. Josué, tu deve de tá estranhando uma pernambucana te escrevendo das bandas do sul. Resolvi migrar pro Rio Grande para fazer meu doutorado em desenvolvimento rural, por falta de opção em virar modelo, ao contrário de um agricultor que a exma procuradora libertou, que ela disse ter vocação pras passarelas, de tão bonito que era, mas cujas mãos foram maltratadas pela enxada. O jeito é continuar no ofício, mas "se essa cerca durar mais um mês, vou embora para o Maranhão!"—


Amália Leonel Nascimento
Nutricionista CRN-6 5545
Doutoranda PGDR/UFRGS
amalia.leonel@ufrgs.br

"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."

Cecília Meireles

REFERÊNCIAS:

RAMPAZZO, Alexandre. Nas Terras do Bem-Virá. Brasil, 2007, 111min. http://www.youtube.com/watch?v=dhSFmz5-yn4&feature=related
MARTINS, José de S. O poder do atraso. São Paulo: Hucitec, 1994.
CASTRO, Josué de. Geografia da Fome. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1946.
HAESBAERT, Rogério. A noção de rede regionalreflexões a partir da migração “gaúcha” no Brasil. Revista Território, ano III, nº 4, jan./jun. 1998.
BETTO, Frei. Sigilo eterno. Brasil de Fato. 1º/07/2011
MONTEIRO, Paulo. O Massacre dos Porongos e Outras Histórias Gaúchas. Editora Berthier, 2010.
LIRA, Pedro I.C.; ANDRADE, Sonia L. L. S. Epidemia de beribéri no Maranhão, Brasil. Cad. Saúde Pública,  RJ,  v. 24,  n. 6, jun.  2008.
CPTPE. Trabalhador assassinado em Cachoeira do IPA– Sertão de Pernambuco. 04 de Julho de 2011.
MÚSICAS: Meu caro amigo e Cálice (Chico Buarque), E agora, José? (Drummond) e Síndrome de Abstinência (Nei Lisboa)

2 comentários:

Anônimo disse...

nao consegui achar o que eu realmente procurava!!!!!!

brunabora disse...

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